A ironia da paisagem: natureza e desencanto em Fim de Romance -Antônio Parreiras (1860-1937)
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João Cícero Bezerra
pós-doutorando
UERJ/ PPGHA/FAPERJ-NOTA 10
Poucos artistas brasileiros ocuparam um espaço tão singular na história da arte nacional na virada do século XIX-XX, absorvendo mudanças e conservando estabilidades, como Antônio Parreiras (1860-1937). Formado inicialmente como pintor de paisagem, ligado à tradição renovadora do chamado Grupo Grimm, o artista construiu uma trajetória que ultrapassou os limites desse gênero e o transformou em um dos nomes mais versáteis da pintura brasileira do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX.
Não há um projeto de pesquisa por originalidade em construir rupturas modernas, mas o desejo de atender às demandas por versatilidade do mercado de arte que eram consideradas tendências (talvez com um pouco de atraso) em suas formas de construções pictóricas. Paisagens, retratos, cenas históricas, composições alegóricas e episódios dramáticos convivem em sua vasta produção, revelando um artista profundamente atento às exigências ecléticas do mercado de seu tempo e, sobretudo, às possibilidades narrativas da pintura que eram exploradas em sua pintura na relação entre as legendas e as obras, demonstrando um amadurecimento conceitual da linguagem de um pintor público, que compreende a força discursiva de seus quadros.
Sua relação com Georg Grimm e com a prática da pintura ao ar livre foi decisiva para sua formação. A experiência da observação direta da natureza fez com que Parreiras desenvolvesse uma percepção refinada da luz, das atmosferas e das variações cromáticas da paisagem brasileira. Entretanto, reduzir sua produção à condição de mero paisagista seria um equívoco. Sua obra insere-se em um horizonte marcadamente eclético, dialogando com o naturalismo, com o simbolismo, com a pintura histórica e, em muitos momentos, com uma dimensão literária que aproxima suas telas da narrativa ficcional.
Esse ecletismo foi, inclusive, objeto de intensos debates na crítica de arte da época. Gonzaga Duque, um dos mais importantes críticos brasileiros do período, não raramente dirigiu observações severas ao artista, questionando certos aspectos de sua produção e sua inserção no circuito oficial das artes. Parreiras, contudo, construiu uma carreira sólida, marcada pelo reconhecimento público, pela grande circulação de suas obras e pelo sucesso comercial. Mais do que isso, revelou uma clara preocupação com a permanência de seu legado. A criação de sua residência-ateliê, atualmente transformada no Museu Antônio Parreiras, MAP-Niterói, assim como a ampla presença de suas obras em importantes museus brasileiros, demonstram uma consciência histórica rara entre os artistas de sua geração.
Nesse vasto conjunto de trabalhos, Fim de Romance, executado em 1912, ocupa um lugar particularmente instigante. Trata-se de uma pintura que articula paisagem e narrativa de maneira singular, produzindo uma cena carregada de ambiguidade e de ironia. À primeira vista, o observador encontra apenas um homem morto sobre uma estrada de terra, uma arma caída junto à sua mão e um cavalo que, com a cabeça abaixada, toca ou lambe o rosto do cadáver. Ao fundo, uma vasta paisagem iluminada se abre sob um céu azul, recortado por nuvens claras e leves.
O impacto inicial da composição nasce justamente da tensão entre o drama humano e a serenidade da paisagem. Não há tempestade. Não há céu carregado. Não há árvores retorcidas pelo vento nem qualquer elemento cenográfico que anuncie tragédia. Ao contrário, tudo parece banhado por uma luz suave e alegre. A paisagem permanece indiferente ao acontecimento.
É precisamente nessa indiferença que reside a força poética da obra.
O próprio título, Fim de Romance, funciona como uma chave interpretativa profundamente irônica. O termo "romance" pode ser lido em diferentes níveis. Pode remeter a uma história amorosa interrompida pela morte; pode sugerir um duelo motivado pela honra ou pela paixão; pode indicar um suicídio decorrente de um amor impossível. Mas o título também permite uma leitura mais ampla: o fim do próprio romantismo enquanto visão de mundo.
Durante o século XIX, a tradição romântica frequentemente estabeleceu uma correspondência entre a natureza e os estados emocionais do indivíduo. A paisagem tornava-se espelho da alma. Céus escuros, mares revoltos e florestas sombrias acompanhavam os dramas interiores dos personagens. Em Fim de Romance, Parreiras rompe deliberadamente com esse princípio. O universo natural não participa da dor humana; simplesmente continua existindo.
O céu é um dos elementos mais expressivos dessa ruptura. Seu azul translúcido, atravessado por nuvens brancas, não anuncia nenhuma catástrofe. A luminosidade distribui-se de maneira uniforme pela tela, criando uma atmosfera de equilíbrio e estabilidade. O espectador percebe que a natureza não lamenta a morte do homem. Ela permanece absolutamente alheia.
A construção cromática reforça essa leitura. Os verdes das colinas e da vegetação são vivos, claros e variados. Não existe uma paleta soturna. A terra da estrada, pintada em tons quentes e claros, conduz o olhar para o horizonte, criando uma sensação de continuidade espacial. Tudo sugere permanência e movimento da vida.
Essa estrada, aliás, possui um papel compositivo fundamental. Ela atravessa a tela em diagonal e desaparece ao longe, conduzindo o olhar para além do acontecimento central. É como se a narrativa individual daquele homem fosse apenas um pequeno episódio diante da imensidão do mundo. A estrada continua. O horizonte continua. A vida continua.
O cavalo ocupa uma posição igualmente decisiva na elaboração desse sentido. Tradicionalmente associado à fidelidade, à nobreza e ao companheirismo, o animal poderia ser representado em atitude desesperada, inquieta ou agressiva. Nada disso acontece. Seu gesto é simples, quase banal. Com a cabeça baixa, aproxima-se do corpo do homem sem demonstrar consciência da tragédia.
Esse gesto produz uma das maiores ambiguidades da pintura. O animal está lambendo o rosto do morto? Está procurando alimento? Busca apenas o contato habitual com seu dono? Parreiras não responde. Ao contrário, oferece ao observador apenas um indício narrativo.
Esse caráter indiciário aproxima a obra da literatura. Assim como em um conto policial ou em uma narrativa de mistério, o espectador recebe fragmentos de uma história, mas jamais sua totalidade. Há uma arma caída ao lado do corpo. Há uma pequena mancha de sangue junto à cabeça. Há um chapéu lançado alguns metros adiante. Existe um cavalo aparentemente sem cavaleiro. Mas o que aconteceu antes daquela cena? Foi um duelo? Um assassinato? Um suicídio? Um acidente?
Nada é esclarecido.
Essa suspensão da narrativa constitui um dos aspectos mais modernos da pintura. Parreiras não ilustra uma história conhecida; ele cria um enigma. A tela exige do observador um trabalho interpretativo semelhante ao da leitura literária, em que os vazios do texto precisam ser preenchidos pela imaginação.
Sob esse aspecto, a obra também realiza uma crítica sutil ao sentimentalismo romântico. O homem morto, talvez vítima de uma paixão, talvez de um código de honra, encontra diante de si um universo completamente indiferente. A natureza não compartilha sua dor. O cavalo não compreende sua morte. O céu não escurece. O campo permanece luminoso.
A ironia do título torna-se, então, ainda mais intensa. O "fim do romance" não é apenas o fim de uma história amorosa, mas o fim da crença de que o universo participa dos dramas humanos. O romantismo prometia uma fusão entre sujeito e natureza; Parreiras apresenta, neste quadro, a dissolução dessa ideologia.
Essa leitura é reforçada pela própria experiência do artista como pintor de paisagem. Formado na observação direta do mundo natural, ele não constrói uma paisagem teatral ou artificial. Ao contrário, pinta uma natureza viva, luminosa e concreta. Sua alegria diante da luz e do espaço permanece intacta, mesmo quando serve de cenário para uma cena de morte.
É justamente essa coexistência entre beleza e tragédia que torna a obra intrigante para sua interpretação. A paisagem não funciona como decoração, não sublinha; ela participa ativamente da construção do sentido, mas de forma irônica. De modo ambíguo, sua serenidade e alegria “natural” é a própria crítica ao excesso sentimental do gesto dramático.
Ao final, Fim de Romance revela um Antônio Parreiras distante das classificações simplificadoras. Paisagista, narrador visual, cronista da condição humana e artista profundamente consciente das transformações culturais de seu tempo, ele produz uma tela em que a morte não interrompe o movimento do mundo.
A estrada continua em direção ao horizonte.
O céu permanece azul.
O cavalo permanece junto ao corpo.
E a natureza, silenciosa, segue seu curso indiferente às paixões humanas.



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