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A maquiagem como forma de arte: Cindy Sherman

  • blogppghauerj
  • 10 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura
Da esquerda para a direita: a primeira imagem é a Untitled Film Still #21 (1978);  a segunda, Centerfolds (sem título) #92 (1981):, a terceira, History Portraits (sem título) #228 e a última é uma publicação feita no Instagram em 14 de junho de 2017.
Da esquerda para a direita: a primeira imagem é a Untitled Film Still #21 (1978); a segunda, Centerfolds (sem título) #92 (1981):, a terceira, History Portraits (sem título) #228 e a última é uma publicação feita no Instagram em 14 de junho de 2017.

Júlia Ribeiro

Graduanda em História da Arte na Uerj


Quando pensamos em maquiagem, geralmente vem à mente correção, embelezamento ou performance social. Mas, nas mãos de Cindy Sherman (1954), essa prática (ou elemento) se transforma em ferramenta radical de criação artística e também de crítica cultural. Desde o final dos anos 1970, a artista norte-americana usa o próprio rosto como tela, a maquiagem como artifício e os clichês da representação feminina como matéria-prima para questionar identidade, gênero e o olhar masculino, conhecido também como “Male Gaze”.


A série mais emblemática da artista, que também marca o início da sua trajetória artística é “Untitled Film Stills” (1977–1980). Nesses 70 autorretratos em preto e branco, Sherman encarna arquétipos do cinema hollywoodiano dos anos 1950-60: a dona de casa entediada, a secretária vulnerável, a femme fatale e a garota fugindo de algo sinistro. Um batom vermelho exagerado, um delineado borrado, uma peruca loira platinada ou um fundo de maquiagem pálido demais são suficientes para construir personagens inteiras. A maquiagem não esconde; expõe. Ela é o código visual que imediatamente nos faz reconhecer o “tipo” de mulher que a sociedade fabricou.


Posteriormente, em “Centerfolds” (1981), originalmente pensada para a revista Artforum, Sherman amplia o formato horizontal típico das páginas centrais de revistas masculinas. Deitada, com olhar perdido ou então assustado, a maquiagem se manifesta de forma singela, quase adolescente: uma sombra azul, blush marcado e batom rosa. Parece maquiagem aplicada por alguém que ainda está aprendendo, considerado ponto central da obra. Cindy subverte o erotismo esperado e devolve um olhar de desconforto, como se a modelo tivesse acabado de perceber que está sendo observada.


Nos anos 90, com as séries “History Portraits” e “Sex Pictures”, a maquiagem atinge níveis grotescos e barrocos. Próteses, látex, sangue falso e camadas grossas de base criam figuras monstruosas ou decadentes inspiradas em pinturas renascentistas e maneiristas. Aqui, a maquiagem abandona qualquer pretensão de beleza e vira máscara literal, que revela o artifício por trás da construção do corpo feminino na história da arte.


Mais recentemente, em seus posts no Instagram (2017–presente), a artista volta a usar filtros e aplicativos de maquiagem digital. O que poderia ser visto como vaidade aos 60 e poucos anos é, na verdade, continuação do mesmo gesto: distorcer, envelhecer, rejuvenescer, deformar o rosto para lembrar que toda identidade é performance. Um filtro que alonga o queixo ou aumenta os lábios é apenas a versão contemporânea do látex e da espuma utilizadas em suas composições da época.


Cindy Sherman nos ensina que maquiagem nunca foi apenas sobre “ficar bonita”, mas sim uma forma de linguagem, poder e crítica. Cada camada de base é considerada metaforicamente uma camada de história cultural; cada traço de lápis é uma citação. Quando ela se transforma em dezenas, centenas de mulheres diferentes usando apenas cosméticos, perucas e roupas, prova que o “eu” é construído, nunca dado. A maquiagem, então, deixa de ser futilidade e passa a ser uma das formas mais potentes de arte contemporânea: aquela que qualquer pessoa pode praticar diante do espelho, mas que poucas dominam como ato político e poético.

 
 
 

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