Pranteadoras: Imagens do Luto
- blogppghauerj
- 18 de dez. de 2025
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Vânia Caroline Saraiva
Graduanda de História da Arte (UERJ)
E-mail: vaniisaraiva@hotmail.com
Os cemitérios brasileiros do século XIX foram profundamente influenciados pelos modelos europeus, sobretudo pelos chamados cemitérios-jardins que surgiram na França e na Itália no início daquele século. Projetados como espaços amplos, arborizados e afastados do centro urbano, esses cemitérios europeus romperam com a tradição dos enterramentos junto às igrejas, que eram chamados de enterros Ad Sactos, e propuseram uma nova relação entre morte, natureza e cidade. Quando o Brasil passa a reformular sua estrutura funerária, impulsionado seja por questões sanitárias e urbanísticas, com intenção de modernizar a cidade, seja pela secularização dos ritos de morte, adota diretamente essas referências estrangeiras. Assim, os primeiros cemitérios públicos brasileiros reproduzem tanto a organização espacial quanto a concepção estética e simbólica dos modelos europeus, mostrando como a modernização do espaço funerário no país se deu sobretudo por meio de importação de padrões arquitetônicos e paisagísticos consolidados no exterior.
A escultura funerária desse período carrega diversos símbolos, em especial a forte presença de representações de mulheres. Dentro dessa categoria de escultura, há a temática das pranteadoras, alegorias fúnebres. Essas figuras femininas são encarregadas de zelar e chorar o morto. Por essa razão, suas configurações envolvem as emoções da melancolia e da devoção e a idealização de beleza eterna. Geralmente convivem com emblemas como urnas, anjos, colunas, cruzes, motivos florais e outras alegorias da morte, compondo narrativas visuais sobre luto e memória. Essas reproduções operam um repertório amplo de símbolos funerários que atravessam diferentes tradições e estilos. As esculturas podem aparecer como obras únicas, modeladas por escultores reconhecidos, ou como peças seriadas adquiridas em catálogos de marmoristas, ampliando o alcance e a circulação de seus modelos.
Para seguirmos nessa conversa, separei algumas imagens de diferentes cemitérios, tanto brasileiros e latino-americanos quanto europeus, que mostram como esses modelos se repetem, se transformam e muitas vezes, se aproximam visualmente, revelando um acervo funerário feminino repleto de beleza, melancolia e intensidade emocional.
Um exemplo marcante dessa estética aparece no Jazigo Perpétuo de Antônio José Ferreira do Nascimento e Família (Fig. 1), no Cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro. Datada aproximadamente de 1872, uma mulher esculpida em mármore branco, apoiada sobre uma urna, inclina o corpo como se tentasse amparar a própria dor. A cena traz tudo aquilo que marcou a escultura funerária do período, o luto idealizado e a postura melancólica com a cabeça inclinada sobre as mãos. Mesmo em meio às consequências da ação do tempo, a figura transmite uma emoção imediata, de pensamento sobre a morte, e consegue convidar o visitante a sentir, mesmo por um instante, o peso e a beleza desse momento de despedida.
Essa alegoria feminina em luto é representada em outras variações. No jazigo perpétuo de J. de Souza Reis Fernandes, sua esposa e filhos (Fig. 2), também no cemitério do Catumbi, a pranteadora difere em poucos detalhes da anterior. Está acompanhada de uma guirlanda de flores, provavelmente de crisântemos, comumente associada ao luto e à homenagem ao morto, sendo uma decoração bastante utilizada não somente em conjunto de esculturas de mulheres, mas também em mausoléus, lápides e adornando cruzes.

A guirlanda e a urna funerária são elementos simbólicos muito presentes nos cemitérios, principalmente quando são acompanhados dessas figuras femininas. Em outro exemplo fora do Brasil, observamos composição similar na escultura da pranteadora do Cemitério General, no Chile (Fig. 3). A mulher enlutada, em pose melancólica, aqui tem o diferencial de estar caída sobre um dos joelhos, lembrando uma pose de lamento, como estar sem chão perante o luto. Ela também é acompanhada de uma urna funerária e uma guirlanda. Esse exemplo é repetido diversas vezes, como podemos ver no exemplo europeu do Túmulo Pommrich (Fig. 4), no Cemitério Francês em Berlim.


As esculturas de pranteadoras não se limitam às composições tradicionais com urnas, flores ou guirlandas; o que realmente as caracteriza é a expressão intensa e recorrente de tristeza e melancolia. Elas assumem posturas corporais que narram o luto diretamente: mãos que cobrem parcialmente o rosto, gestos de choro explícito, corpos que se curvam como se cedessem ao peso da dor e, em alguns casos, figuras quase encolhidas, próximas à posição fetal. É um luto arrebatador, expresso sem contenção, verdadeiramente aos prantos. Exemplos claros dessa expressividade podem ser observados na obra do túmulo de Pierre Gareau em Paris (Fig. 5) e no monumento sepulcral de Giovanni Montorsi em Pisa (Fig. 6).


Ao percorrer essas figuras femininas que habitam os cemitérios latino-americanos e europeus, é possível perceber como as pranteadoras formam somente uma parte de um repertório de imagens muito mais amplo, no qual o luto se materializa em gestos, símbolos e expressões corporais que atravessam épocas e geografias. A escultura funerária, embora profundamente marcada pelo imaginário cristão, dialoga de maneira constante com a tradição clássica, com os drapeados que ecoam as esculturas clássicas, posturas inspiradas em ninfas e matronas antigas, e gestualidades que remetem ao repertório pagão de dor, espera e transcendência. Essa mescla cristã e pagã, moderna e antiga, não é um detalhe; é justamente a característica que confere força simbólica às obras e que explica por que tantos modelos se repetem ou se reinventam de forma similar em cemitérios de diferentes partes do mundo.
Reunir essas imagens, colocá-las lado a lado e observá-las com atenção permite compreender que a escultura funerária opera em um território híbrido, feito de permanências e repetições. Se as pranteadoras choram, velam e se inclinam, outras figuras femininas como viúvas, Madonas, alegorias da alma, mulheres idealizadas, participam da mesma visualidade do luto. Cada uma, à sua maneira, prolonga a pergunta sobre como apresentar a dor, como representar a ausência, como esculpir a memória.
Para encerrar, deixo esta última escultura do túmulo de Silvia da Rocha Vaz Santiago (Img.7), registrada no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Nela, a delicadeza do gesto, o tratamento do tecido, o peso inclinado da cabeça e a suavidade da expressão condensam tudo o que percorremos até aqui, a permanência de um modelo clássico, a sensibilidade cristã do luto e a capacidade da escultura funerária de transformar a dor em forma. Uma figura que, mesmo silenciosa, parece dizer muito sobre essa tradição visual que permanece.

Referências:
Ariès, Philippe. O homem diante da morte. Trad. Luíza Ribeiro. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
Berresford, Sandra. Italian memorial sculpture 1820-1940: a legacy of love. Estados Unidos: Frances Lincoln, 2004.
Borges, Maria Elizia. O cemitério como museu a céu aberto. In: VII Congresso Internacional Imagens da morte: tempos e espaços da morte na sociedade, São Paulo, Brasil, 2016.
————————— No panteão da memória: as Ninfas de Didi-Huberman e as pranteadoras funerárias. In: CAPEL, [org.]; NORONHA, [org.]; PATRIOTA, [org.]. História e imagens: jornadas com Didi-Huberman. São Paulo; Verona, 2016.
————————— A estatuária funerária no Brasil: representação iconográfica da morte burguesa. São Luís: VII Abanne, G’t Antropologia da Emoção, Edições do GREM, v. 8, 2004.
————————— Ressignificações da saudade e da desolação: pranteadoras guardiãs perenes dos túmulos. XXXI Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Campinas: Unicamp, Instituto de Artes. 2011.



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