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Além do Tecido: Encontros entre Moda, Indumentária e Figurino

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há 3 dias
4 min de leitura

Mariana Magalhães Santos Gonçalves



Croqui de figurino de Bonequina de Luxo. Ilustração de Edith Head. Foto: Reprodução/Christie’s
Croqui de figurino de Bonequina de Luxo. Ilustração de Edith Head. Foto: Reprodução/Christie’s

Mariana Magalhães Santos Gonçalves

Mestranda em História da Arte - UERJ

Pós-Graduanda em Moda e Figurino - IFG

Bolsista CAPES - DS


Todos os dias, ao abrirmos o guarda-roupa, tomamos uma decisão que parece banal, mas que carrega séculos de códigos sociais, narrativas e uma profunda semiótica visual. Vestir-se é um ato humano fundamental, mas o que exatamente estamos vestindo? Seria indumentária, moda ou um figurino de nós mesmos? Embora esses três termos sejam frequentemente usados como sinônimos no dia a dia, para pesquisadores e analistas da cultura, eles delimitam territórios distintos, ainda que profundamente entrelaçados. Entender essas diferenças é o primeiro passo para decifrar a complexa linguagem que cobre nossos corpos, e é sob a lente investigativa da História da Arte que essas três esferas ganham seu verdadeiro contorno.


Para começar a desenredar essa teia, precisamos olhar para a indumentária. De forma ampla, ela é a base de tudo: trata-se do conjunto de vestes, texturas e adornos usados por um grupo em determinada época ou região. Ela tem raízes antropológicas e sociológicas incontornáveis. Historicamente, a indumentária surge da necessidade de proteção contra os elementos e rapidamente evolui para os códigos de pudor e distinção de classes. Quando um pesquisador analisa a indumentária do século XVIII, ele está olhando para o registro físico e factual do que as pessoas usavam, independentemente de tendências passageiras; é o documento material de uma sociedade.


O casal Arnolfini, Jan van Eyck, 1434.
O casal Arnolfini, Jan van Eyck, 1434.

A moda, por outro lado, é um fenômeno e um sistema ávido por movimento. Como define o sociólogo francês Gilles Lipovetsky, ela é pautada por uma busca pela renovação constante. A moda não é apenas a roupa costurada; é o desejo pelo novo, a efemeridade, o reflexo imediato do espírito do tempo. Ela ganha força com a ascensão da burguesia, onde a mudança de estilos deixa de ser ditada apenas pela lentidão das cortes e passa a ser impulsionada pelo consumo e pela expressão individual, descartando o passado para celebrar o presente de forma incessante.

Já o figurino pertence ao reino da narrativa e da construção de mundos. Ele não existe no vácuo da sociedade, mas dentro de um enquadramento muito claro: o palco, a tela do cinema, a televisão. O figurino veste uma personagem e exige um trabalho rigoroso de modelagem e concepção no ateliê para comunicar, em frações de segundo, a psicologia, a classe social e o arco dramático de quem o veste. Diferente da moda, que busca ser adotada pelas massas, o figurino é uma peça de design cênico que pertence àquela história específica e àquele corpo encenado, servindo à recepção do espectador.


Na prática, porém, as fronteiras entre esses três universos são altamente permeáveis. A indumentária fornece o vocabulário modelar básico. A moda, atenta a tudo, costuma se apropriar de indumentárias tradicionais e as transforma em tendência global. Ao mesmo tempo, moda e figurino vivem em um constante e riquíssimo flerte. Basta pensar no impacto do cinema clássico na estética global: os figurinos criados por Hubert de Givenchy para Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo não apenas construíram a aura da personagem, mas ditaram o que as mulheres reais desejavam consumir nas ruas. Inversamente, criadores cênicos contemporâneos frequentemente usam peças de acervos de moda para ancorar personagens no tempo presente.


Mas onde a História da Arte entra nessa equação? A resposta é: em absolutamente tudo, funcionando como o nosso maior arquivo iconográfico. Antes do advento da fotografia no século XIX, a arte era a única forma de sabermos o que constituía a indumentária de épocas passadas. O caimento pesado do veludo nas pinturas de Ticiano, os drapeados fluidos das esculturas gregas e romanas ou a rigidez das golas nos retratos holandeses não são apenas demonstrações de genialidade técnica na representação de tecidos; são os documentos vitais sobre a tecnologia têxtil e a hierarquia do passado.


Para a moda, a História da Arte atua como uma fonte inesgotável de questionamento estético. O encontro entre esses dois mundos gerou revoluções visuais no século XX, como o famoso vestido Lagosta de Elsa Schiaparelli, fruto direto de seu diálogo com o Surrealismo, ou os vestidos Mondrian de Yves Saint Laurent, que traduziram o neoplasticismo para a tridimensionalidade do corpo em movimento. No universo do figurino, a arte fornece a paleta de época e a atmosfera. Um profissional que precise recriar uma corte absolutista ou a efervescência da belle époque mergulhará profundamente na pintura não apenas para copiar colarinhos, mas para entender a luz, o gesto e a iconologia daquelas imagens, traduzindo-as para a cena.


Coleção Mondrian, Yves Saint Laurent, outono-inverno 1965.
Coleção Mondrian, Yves Saint Laurent, outono-inverno 1965.

Moda, indumentária e figurino são, no fim das contas, as ferramentas mais viscerais que a humanidade utiliza para dizer quem é, de onde veio e como deseja ser lida. Como um campo de estudo inesgotável, a História da Arte nos lembra que não há linha costurada, cor tingida ou silhueta desenhada que não esteja saturada de significado. Olhar para as nossas roupas através dessa tríade é perceber que somos, simultaneamente, herdeiros de tradições antigas, agentes do nosso tempo e as personagens principais da nossa própria história.


 
 
 

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