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"Gota d’água” e a Expressão Dramática nas Artes: Joana e o Sofrimento da Mulher Abandonada.

  • blogppghauerj
  • 14 de jul.
  • 6 min de leitura

Figura 1. Ruth Toledo. Bibi Ferreira e Francisco Milani, em “Gota d’água, 1977, fotografia.
Figura 1. Ruth Toledo. Bibi Ferreira e Francisco Milani, em “Gota d’água, 1977, fotografia.

A tragédia e seu herói


A palavra tragédia vem de tragoidia, que seria a aglutinação de tragos (bode) com oidé (canto), uma alusão aos sátiros de Dionísio. Acredita-se também que a tragédia seria uma referência ao sacrifício de um bode sagrado para o deus do vinho. Do improviso surge a tragédia, do ditirambo proferido nas festas dionisíacas. 

Segundo Aristóteles (1994, 110), tragédia é um tipo de encenação dramática que deseja provocar, pela compaixão e pelo terror, uma catarse, isto é, um misto de purgação e purificação. Para isso ocorrer, é necessária uma identificação do público com o sofrimento do personagem. O espectador é levado a sentir o mesmo que, em cena, sofre o personagem. Para que uma tragédia seja convincente, deve-se criar esse tipo de relação trágica com o público. O objetivo consiste em representar uma ação elevada e, para isso, os personagens são destacados por seu caráter e suas qualidades morais. A “tragédia não é uma imitação de pessoas, mas de ações, e essas ações levam o ser humano à felicidade ou a desventura [...] E o fim da tragédia não precisa ser, obrigatoriamente, trágico. A força trágica pode estar no meio dos acontecimentos” (Wrigg; Moraes, 2010, p. 32).

A tragédia ocorreu por um erro de julgamento do herói (hamartia). Ainda que sem intenção, o personagem comete uma grande falta e, assim, ultrapassa os limites da hybris. Isso significa que ele praticou uma ação exagerada, desmedida, que excedeu os critérios éticos preestabelecidos. Com a continuação da falha e não havendo como revertê-la, esta se transforma em tragédia. Ao ultrapassar seus limites, o ser humano comete uma violência contra si mesmo, provocando e despertando a fúria dos deuses.


Gota d´água: uma tragédia carioca


Escrita em 1975, por Chico Buarque e Paulo Pontes, referenciando a obra original “Medeia”, do dramaturgo grego Eurípedes, “Gota d’água” é uma adaptação da peça grega para a realidade brasileira. Medeia se torna Joana, uma mulher mais velha, macumbeira, com dois filhos e recém-separada de Jasão, um jovem sambista em ascensão e prestes a se casar com Alma, a mocinha burguesa e filha de Creonte, o corrupto dono de um conjunto habitacional.

O enredo desenvolve-se em meio à população pobre de um vilarejo do Rio de Janeiro, a “Vila do Meio-dia”, na qual mora a protagonista Joana. Ali tem início seu sofrimento. A ganância de Jasão representa não somente a traição à sua mulher, mas também uma traição a todo um povo reprimido que trava batalhas pelo seu sustento. Seu senso de coletividade se corrompe assim que o corrupto capitalismo de Creonte o absorve.

Trata-se de uma tragédia contemporânea carioca cujos personagens se adequam ao popular. O coro é composto pela vizinhança fofoqueira, a comadre e conselheira de Joana e o dono da bodega. São personagens do cotidiano que marcam a peça dominada por vingança e ódio.

A obra incorpora os princípios de sua época, sendo política e popular. Os valores sociais se modificam em um cenário de classes média e baixa no período da ditadura brasileira, sendo um texto também de resistência, uma vez que passou pela censura dos anos de chumbo.


“Gota d’água” se forma a partir de um período de insegurança e repressão, tendo como parte da tragédia o aumento das desigualdades sociais no Brasil após o golpe militar. O drama de Joana não diz respeito apenas à traição de Jasão, como em Medeia [...], é vítima também da situação social em que se encontra, junto a seus pares (Ferreira, 2018, p. 45).

A relação de Jasão com os filhos também muda após a separação. Vemos o sambista abandonar as crianças no momento que constitui uma nova família. A vingança de Joana contra ele consiste em atingir os pequenos para que ele sofra e passe por uma dor parecida com a dela. Ao contrário de Medeia, Joana não possui uma vida luxuosa, vivendo em condições precárias no conjunto habitacional. Sua feitiçaria vem da ancestralidade do terreiro, onde busca força e apoio para sua vingança.

A tragédia de Buarque e Pontes é composta por assassinato e suicídio. Joana, tomada por dor e sofrimento, buscando autopiedade, mata a si mesma e aos filhos. Apenas o assassinato não é o suficiente, o suicídio de Joana coloca um ponto final na relação dos dois. Sua morte serve para que ela nunca mais o procure, mas Jasão viverá eternamente com a culpa, a dor, o sofrimento e o peso provocado pelo abandono.

Vinda de uma relação conjugal não oficializada, Joana não se deixa excluir pelo silêncio; ultrapassa os limites da moral e da ética para poder viver com Jasão. Ela encontra nos filhos o poder de manipular o homem, transmutando o amor em sede de vingança. A personagem se dá conta de que anos de dedicação ao casamento não foram o suficiente para manter Jasão, o marido que nunca lhe devolveu nada, apenas tomou de seu tempo e atenção. Joana se deixa afetar pela mágoa que apenas cresce dentro de si, vê no tempo o desperdício de sua juventude gasta com a ingratidão de Jasão, que a abandona pela ganância.

O assassinato das crianças está para além do sofrimento causado pelo desleixo do pai; ela também vê nos filhos uma cópia de Jasão e, antes que os dois se transformem no reflexo do sambista, suas vidas são interrompidas. 


Joana mata a si mesma e aos filhos pela busca de autopiedade, diferente da heroína da tragédia grega, e também para que seu ato seja visto como uma reflexão sobre a realidade brasileira no período da ditadura. Joana faz com que no “desfecho da festa”, aos olhos atônitos dos convidados para o casamento de Jasão, seus algozes se vejam e sintam-se culpados” (Nascimento, 2007, p. 6).

Seu suicídio provoca piedade e compaixão, aproximando o público da catarse, para que percebam que “a festa é traiçoeira, [...] não há mal que nunca se acabe nem festa que dure a vida inteira” (Buarque; Pontes,1981, p.75).


Sofrimento e abandono


Pathos é uma palavra de origem grega compreendida como sofrimento, paixão e afeto. A peça, que trata do drama da mulher abandonada por um homem corrompido pelo sistema, coloca-nos também frente às discriminações sofridas pelo feminino ao longo da formação da nossa identidade nacional.

A questão abordada faz referência ao contexto historiográfico, considerando que a história das mulheres na atualidade se deve à sua atuação junto às sociedades do passado. Em “Gota d’água”, a história de “Medeia” é revisitada dentro de um feminismo conquistado, uma mulher adaptada para a realidade brasileira da década de 1970.

Associada também à tragédia, Anankê é o destino, a inevitabilidade, aquilo que não se tem como mudar, o que está predestinado para os seres humanos e até mesmo para os deuses. Não se pode mudar o destino. Se em “Medeia” a personagem mata os filhos, em “Gota d’água” as crianças têm o mesmo fim. As situações das duas peças ocorrem de formas diferentes, mas elas têm o mesmo desfecho: a morte dos filhos para o sofrimento de Jasão. O que difere Medeia de  Joana é que na tragédia grega a morte dos descendentes é sem remorso, apenas provocativa a vingança aos deuses e a Jasão. Por outro lado, na tragédia carioca, a mãe, que se torna solo, mata os filhos para que eles não sofram com a ausência do pai, para que eles não cresçam e se tornem uma projeção desse masculino, e está  relacionado também às dificuldades de criar duas crianças em um conjunto habitacional.

Joana, que por anos ajudou Jasão a se construir, tem uma morte lenta e sutil, pois morreu muito antes de tirar a própria vida. A paixão não correspondida, o abandono e a troca pela juventude foram apenas o ponto final para o desfecho da história. Seu destino foi traçado durante os anos de casamento, através de agressão e humilhações sofridas por ser quatorze anos mais velha que o ex-marido, pela forma como ela é abandonada após ele ter sua ascensão social e conhecer uma mulher mais nova, ou de como é expulsa do conjunto habitacional por Creonte por intolerância religiosa. Atitudes essas que a fazem cometer o ato suicida.

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Texto escrito por Ana Claudia Rezende para a disciplina “Laboratório de História, Crítica e Teoria da Arte”, ministrada pelo professor Alexandre Ragazzi, no Instituto de Artes da UERJ, em 2023. Referências

ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudora de Souza, 4ª ed., Lisboa: INCM, 1994, p. 110.


BUARQUE, Chico. PONTES, Paulo. Gota d`água. São Paulo: Círculo do livro,  1975.


FERREIRA, Gabriel. Revivificar Medeia: Três versões do mito. 2018. 63 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Letras) – Escola de Letras, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018. Disponível em: https://www.unirio.br/escoladeletras/tcc-gabriel-ferreira


SANTOS, Alcione Nascimento. A Gota que falta e o desfecho da festa: a representação do feminino em Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. XII Seminário Nacional Mulher e Literatura e do III Seminário Internacional Mulher e Literatura, Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus/Bahia, 2007, p. 1-8.


WRIGG, Beth; WRIGG MORAES, Ivan. História das artes cênicas: Teatro Grego. Rio de Janeiro: Oficina Editores, 2010.

 
 
 

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